As Terras Onde o Sol Morreu
Há 317 anos, o sol desapareceu. Agora, estranhas mudanças anunciam que algo antigo está despertando sob um mundo condenado.
Enredo
Há 317 anos, o mundo perdeu o sol. Não foi um eclipse. Não foi uma noite prolongada. Durante sete minutos, todas as sombras do mundo desapareceram. Quando voltaram, o céu continuou iluminado por uma estrela branca e imóvel, mas o verdadeiro sol nunca mais nasceu. Desde então, o mundo vive sob uma luz diferente. As plantas aprenderam a crescer de maneiras estranhas. Algumas florestas brilham durante a noite. Certas criaturas nasceram com órgãos que produzem calor. Rios começaram a mudar de curso sem que houvesse chuva. Em algumas regiões, a própria sombra de uma pessoa pode se comportar de maneira diferente dela. Os antigos chamaram o fenômeno de A Queda da Aurora. Ninguém sabe o que realmente aconteceu. Os reinos que existiam naquela época desapareceram. Seus palácios foram enterrados, suas estradas foram cobertas pelas florestas e suas histórias foram transformadas em religião, superstição e mentira. Mas algumas coisas sobreviveram. No extremo norte existe uma cidade construída dentro de uma montanha. Seus habitantes nunca permitem que estranhos vejam o que existe no nível mais profundo. No oeste, um arquipélago inteiro é coberto por uma névoa permanente. Navios entram nela, mas raramente retornam. Os poucos sobreviventes falam sobre cidades submersas e sinos tocando debaixo do oceano. Ao sul existe o Mar de Vidro, uma região onde antigas batalhas transformaram quilômetros de terra em uma superfície negra e cristalina. Durante determinadas noites, pessoas afirmam enxergar acontecimentos que ocorreram séculos atrás refletidos nela. No centro do continente encontra-se o maior território conhecido: o Reino de Auren. Auren parece próspero. Suas cidades são ricas, suas muralhas são imensas e suas estradas estão protegidas por soldados. Comerciantes atravessam o território carregando especiarias, metais, medicamentos e artefatos encontrados em ruínas. Mas Auren está lentamente apodrecendo por dentro. A nobreza disputa o controle das minas. As guildas compram funcionários públicos. A Igreja da Aurora afirma possuir uma explicação para o desaparecimento do sol. Exploradores desaparecem nas fronteiras. E soldados estão sendo enviados para regiões onde oficialmente não existe guerra. Enquanto isso, algo está mudando no mundo. Nos últimos dez anos, começaram a surgir pessoas capazes de ouvir sons vindos de lugares onde não existe ninguém. Animais estão abandonando territórios ancestrais. Crianças estão nascendo com marcas semelhantes às encontradas nas ruínas antigas. E algumas pessoas desaparecidas estão retornando anos depois sem terem envelhecido. Elas trazem consigo a mesma frase: “Ele está acordando.” Ninguém sabe quem é “ele”. Alguns acreditam que seja uma divindade. Outros acreditam que seja uma criatura. Há estudiosos que defendem uma hipótese ainda mais perturbadora: talvez “ele” não seja alguém. Talvez seja o próprio mundo. Em meio a tudo isso, pessoas comuns continuam vivendo. Mercadores precisam proteger suas caravanas. Famílias tentam sobreviver às guerras. Nobres conspiram. Caçadores perseguem criaturas. Exploradores procuram riquezas nas ruínas. Soldados obedecem ordens que nem sempre compreendem. E aventureiros encontram problemas que ninguém mais quer enfrentar. Não existe um herói destinado a salvar o mundo. Não existe uma única história esperando para acontecer. Existem milhares de histórias acontecendo simultaneamente. Uma decisão aparentemente pequena pode destruir uma família. Uma informação pode iniciar uma guerra. Uma pessoa desconhecida pode carregar um segredo capaz de mudar a história. Uma criatura considerada monstruosa pode estar fugindo de algo muito pior. O mundo não sabe quem você é. E não precisa saber. Você pode chegar como um mercador, soldado, explorador, criminoso, nobre, estudioso, andarilho ou qualquer outra pessoa. Seu passado pertence a você. Seu objetivo também. Mas, cedo ou tarde, você encontrará alguma coisa que não deveria existir. E então terá que decidir o que fazer com aquilo. Porque, desde que o sol morreu, ninguém descobriu ainda se o mundo está esperando por um novo amanhecer... ou se está lentamente aprendendo a viver sem ele.
Cena de abertura
A chuva terminou pouco antes do amanhecer. Não que alguém pudesse dizer exatamente quando o amanhecer começou. Há mais de três séculos, o mundo perdeu o verdadeiro sol. Desde então, uma estrela branca permanece imóvel no céu, distante demais para aquecer a terra e brilhante demais para permitir que a escuridão seja completa. Ela não nasce. Não se põe. Não se move. Apenas observa. Naquela manhã, sua luz fria atravessa uma camada espessa de nuvens e encontra uma estrada antiga, estreita e irregular, construída com pedras que já perderam a forma original sob centenas de anos de chuva, neve, rodas e passos. A estrada corta uma região rural próxima às fronteiras do Reino de Auren. À esquerda, campos cultivados descem suavemente até um rio largo, de águas escuras e lentas. Pequenas casas de madeira e pedra estão espalhadas pela margem, quase todas com chaminés acesas apesar do horário. A fumaça sobe reta por alguns metros antes de se dispersar no ar úmido. À direita, a paisagem muda. Árvores começam a surgir de maneira irregular, primeiro como grupos isolados, depois formando uma parede verde-escura que se estende por quilômetros. A Floresta de Veyr. Nos mapas oficiais, ela é apenas uma floresta antiga. Nos mapas de comerciantes, é uma região cara demais para atravessar. Nos mapas militares, há partes que simplesmente não estão desenhadas. Dizem que seus limites mudaram três vezes no último século. Dizem também que algumas pessoas entram e retornam anos depois sem terem envelhecido. Outros juram que isso é apenas uma história inventada por contrabandistas para assustar viajantes. A estrada segue entre os dois mundos. Civilização de um lado. Floresta do outro. E, por enquanto, nenhum deles parece particularmente interessado em explicar o que existe além de suas fronteiras. O ar ainda carrega o cheiro da chuva noturna. Terra molhada. Casca de árvore. Ferro enferrujado. Cinzas. E existe outro cheiro. Fraco. Metálico. Quase escondido pelo odor da lama. Sangue. A primeira coisa estranha é a carroça. Ela está parada alguns metros adiante, atravessada parcialmente sobre a estrada, com uma das rodas dianteiras destruída. Não parece ter sido simplesmente abandonada. A madeira da lateral está quebrada para dentro. Uma das tábuas apresenta três cortes profundos. Os sulcos atravessam a madeira como se alguma coisa extremamente afiada tivesse passado por ela com força suficiente para quase separá-la. O cavalo ainda está preso ao arreio. Ou o que restou dele. O animal está deitado de lado, imóvel, com os olhos abertos. A pelagem escura está coberta de lama e chuva. Há sangue seco junto à boca e uma marca estreita atravessando o pescoço. Não parece ter sido morto por uma lâmina comum. Perto da carroça existem caixas abertas. Algumas estão vazias. Outras contêm sacos de grãos rasgados. Uma pequena caixa de madeira está quebrada no chão. Dentro dela havia frascos de vidro. A maioria foi destruída. Um ainda permanece intacto. O líquido no interior possui uma coloração azul muito pálida. Não há ninguém perto da carroça. Mas existem pegadas. Muitas. Algumas pertencem a botas humanas. Outras não. As marcas diferentes aparecem apenas por alguns metros antes de desaparecerem completamente sobre as pedras. Como se aquilo que as deixou tivesse parado de tocar o chão. Mais adiante existe uma pequena construção de pedra. Um posto de controle. A porta está aberta. Uma bandeira de Auren pendura-se de um mastro quebrado. Dois guardas estão do lado de fora. Um deles é jovem, talvez pouco mais de vinte anos. O rosto está pálido, e ele segura uma lança com força suficiente para deixar os dedos quase sem cor. O outro é mais velho. Cinquenta anos, talvez mais. Tem uma cicatriz fina atravessando o lado esquerdo do rosto e uma barba curta cuidadosamente aparada. Seu uniforme está molhado, mas o homem não parece preocupado com a chuva. Ele está olhando para a floresta. Não para a estrada. Para a floresta. — Quantos? — pergunta o jovem. — Três. — Três o quê? O homem mais velho demora alguns segundos para responder. — Três corpos. O jovem engole em seco. — E os outros? Silêncio. O veterano finalmente olha para ele. — Os outros ainda não foram encontrados. O jovem baixa a voz. — Você acha que foi um animal? O homem mais velho olha para a carroça. Depois para as árvores. — Animal deixa rastro. A conversa termina ali. Nenhum dos dois percebe imediatamente a aproximação de quem está na estrada. Mais longe, além do posto, a estrada continua em direção a uma vila. É possível ver a torre de uma pequena capela. Uma fumaça escura sobe atrás das casas. Não parece fumaça de chaminé. Uma multidão pequena se concentra próxima à praça. Algumas pessoas carregam baldes. Outras apenas observam. Um sino toca. Uma vez. Duas. Três. Então para. Na quarta tentativa, o som não vem. Alguma coisa parece ter quebrado dentro da torre. Um cachorro começa a latir. Outro responde. Depois um terceiro. Todos os três silenciam ao mesmo tempo. O vento muda. A floresta faz barulho. Não é um rugido. Não é um grito. É o som de dezenas de folhas se movendo simultaneamente, embora o restante da paisagem permaneça quase imóvel. Os dois guardas percebem a mudança. O mais jovem vira-se imediatamente. A mão dele vai para a espada. O veterano não se move. Ele apenas observa a linha das árvores. E então diz, quase num sussurro: — Não olhe por muito tempo. Não fica claro para quem ele está falando. Na estrada, ninguém sabe ainda o que aconteceu durante a noite. Ninguém sabe quem atacou a carroça. Ninguém sabe por que os corpos foram encontrados. Ninguém sabe por que três pessoas desapareceram. E ninguém na vila percebeu ainda que alguma coisa saiu da floresta. A estrada continua aberta. A vila está logo adiante. A floresta permanece silenciosa. O posto militar espera. E o mundo continua se movendo, com ou sem aqueles que decidirão atravessá-lo. O que você faz?
Personagens
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